Tomorrow has to wait

Assim começa Tomorrow has to wait, do Peter Bjorn and John. Assim é a premissa do protagonista de Druk, de Thomas Vinterberg. A primeira é uma música de 2011. O segundo, um filme de 2020.

E eu sou apenas e tão somente uma consumidora de cultura pop com a ferramenta da Internet em minhas mãos. O que acontece é que essa noite estava conversando com um amigo que mora em outra cidade, da época em que escutávamos Peter Bjorn e John, o que me fez abrir o Spotify e revisitar não só o álbum de 2011, como a maioria das memórias que estavam guardadas na minha cabeça.

E isso é uma coisa engraçada. Essa coisa da memória. Ela pode ir pra trás, mas ela também pode se combinar com o presente. Pois, assim que escutei Tomorrow has to wait me lembrei do personagem do Mads Mikkelsen.

Dizer que o protagonista começa a beber porque enfrentava uma crise de meia-idade seria reduzir demais a premissa do roteiro, ainda que eu não saiba quais eram as pretensões do roteirista. Mas não parece ser uma questão de tempo e sim, existencial, experimental. Sem dar spoilers e fazendo uma conexão com a música do Peter Bjorn and John, o protagonista não parece se arrepender do que fez. E nem deveria. Estamos acostumados demais a medir nossos passos pelas consequências imediatas a que eles podem levar, sendo que a vida é muito mais longa do que um instante, do que uma semana, um mês, um ano, um filme. Mads, ou Martin, é um professor de ensino médio que junto com seus colegas de trabalho, inspirados por uma teoria heterodoxa, decidem ingerir certa quantidade de bebida alcoólica no cotidiano. É um experimento e como tal, leva à consequências que devem ser analisadas, não de uma maneira arbitraria, mas sim, analisando ponto a ponto.

O álcool. Meu deus como a gente precisa. E como não sabemos quando largar. Na verdade, serve pra todo tipo de vício. Já li uma matéria sobre um cara que estudou o vício usando ratinhos e criando um Rat Park. Bruce K. Alexander criou uma verdadeira cidade para os ratos do seu laboratório. E ele descobriu que os bichinhos que tinham outro tipo de entretenimento acabavam consumindo menos água com heroína do que os que simplesmente ficavam enjaulados. Não, eu não acredito que Martin ou a gente estejamos simplesmente enjaulados. Mas qual o nível de entretenimento ao qual estamos expostos atualmente? Não vou entrar em discussões sobre esse assunto durante a pandemia, pois é um momento excepcional. Mas em nossa vida? Será que você tem acesso ao entretenimento numa quantidade que torne sua vida um pouco mais suportável? Será que está vivendo ou apenas sobrevivendo? Sendo assim, é difícil julgar Martin e seus amigos por irem adiante com o experimento das bebidas alcóolicas.

Veja, talvez tenhamos ido longe demais. Mas agora é a hora. O experimento atingiu seu ápice, esse é o famoso “insight” que acontece durante as sessões de terapia. E aqui não importa se foi o álcool ou qualquer outra substância que tenha levado até a conclusão. É o aqui e agora. Tudo o mais pode esperar. Martin sabe bem disso. Sua família está preocupada, ou até mais do que isso. Mas ele já chegou até ali, não é hora de parar. A catarse, enfim. E através da direção de Thomas Vinterberg podemos visualizar umas das mais belas catarses do cinema. A cena em que Martin dança, “voa” pelo banco, é uma das mais belas até então filmadas. E sim, ele está sob a influência do álcool, esse herói-vilão, que o acompanhou em toda a trajetória até aqui. De modo que fica o questionamento: o que ingerimos? Por que? Quanto? Até onde? Para que? E muitas outras mais. E quem é que vai culpá-lo?

Você? Eu? Peter Bjorn and John? Não, não é o que me parece. O que me parece é que precisamos abraçar mais esses momentos de catarse. Essas fugas da realidade de vez em quando. Perder-se também é um caminho.

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The saddest girl to ever hold a Martini.

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